UM ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA NO BRASIL

UM ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA NO BRASIL CEGUEIRA

Ao acordar todos os dias em um Brasil distópico, onde a nova realidade se impõe e se apresenta cada vez mais árdua e mais desesperançosa, uma pergunta que aparece no livro Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago (1995), se impõe, “Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.” Assim como no diálogo entre os personagens, concordo que nós, aqui no Brasil, não cegamos, estamos cegos.

De acordo com Josephine Evetts-Secker (2019, p. 81) Trabalhar metaforicamente/miticamente cria novos caminhos neurais de modo mais efetivo do que trabalhar cognitivamente.” Pensando nisso e na potencialidade da metáfora saramaguiana, vou tomar como referência, para a discussão proposta aqui, o livro Ensaio sobre a Cegueira. Para isso, preciso apresentar o autor e a história, especialmente para aqueles que ainda não tiveram contato com essa obra, diga-se de passagem, imperdível. Saramago possui vasta obra literária, nasceu em Portugal, 16 de novembro de 1922, e faleceu em 18 de junho de 2010; é o único escritor em Língua Portuguesa a ter ganhado um Nobel[1] de Literatura. Sua obra Ensaio sobre a Cegueira, narra a história de um grupo de pessoas que tentam sobreviver a uma epidemia de cegueira, que assola a cidade onde vivem.

A principal discussão levantada é o quanto deixar de enxergar nos desumaniza, nos tira a principal característica, aquela que nos faz pertencentes ao grupo denominado humanidade e que nos diferencia dos outros animais que existem na Terra. Ou seja, é uma história distópica que apresenta de forma clara e contundente, o quanto nos desumanizamos, quando paramos de “enxergar”.

Saramago é dono de um estilo único e usa da alegoria para escrever essa história. Mas, por que é relevante trazer à tona esse exemplo literário e comparar ao que estamos vivendo? Porque assim como os personagens do livro, devido ao acometimento da cegueira, vão perdendo pouco a pouco a sua capacidade de compreender e ter empatia pelo outro, no Brasil atual também vivemos essa realidade. Boa parte da população perdeu a capacidade de se compadecer com mais de 511.000 mortes por COVID-19, com a pobreza que se alastra em todo o país, com as reações machistas, com as violências contra as minorias etc.

Logo no início da história, de Saramago, todos pensam que os seres humanos se tornarão mais solidários e suas características humanas irão sobressair, contudo, o que ocorre é que logo as características menos humanas, mais animais e instintivas sobressaem e o ser humano, deixa de ser humano. Ninguém “enxerga” a mudança necessária para o bem coletivo, a cegueira moral, o instinto animal de sobrevivência prevalece, sobrepuja a compreensão da necessidade de existência no coletivo.

Assim também, no início da pandemia do Corona vírus, ouviu-se muito que sairíamos melhores, que nos transformaríamos em pessoas mais bondosas e que daríamos mais valor à nossa vida e compreenderíamos a importância do coletivo. Mas, o que vemos hoje, depois de mais de dois anos, é o desprezo pelo imenso número de mortos, pelas pessoas em situação de vulnerabilidade, pela natureza.

A escrita de Saramago é recheada de símbolos, assim como também é o momento que estamos vivendo. Importante ressaltar que a leitura que segue, a partir de uma visão simbólica, é apenas uma possibilidade, já que se faz a partir da visão junguiana de símbolo e, como afirma Barthes,

 

[...] atualmente a semiologia já não coloca a existência de um significado definitivo. Isso quer dizer que os significados são sempre significantes para outros, e reciprocamente. Na realidade, em qualquer complexo cultural ou mesmo psicológico, encontramo-nos diante de cadeias infinitas de metáforas cujo significado está sempre em recuo ou se torna ele próprio significante. (2004, p. 228).

 

Portanto, ao levar isso em consideração, o primeiro símbolo que pode ser destacado da obra é a própria cegueira. Sobre esta Saramago descreve como branca, o que difere do usual, já que a cegueira física pressupõe escuridão. O “mal branco”, de acordo com a história, explicita que os contaminados dizem sentir como se uma luz muito forte estivesse acesa diante de seus olhos. Portanto, é possível pressupor que poderia representar o excesso de luz, e não só disso, mas o excesso de tudo: de informação, de tecnologia, de trabalho, de ambição, excesso de tudo que faz as pessoas “cegarem” para as coisas que são realmente importantes na vida. De acordo com Marx (2010, p. 268) “Com a valorização do mundo das coisas, aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens”. Quando um país insiste em banalizar a fala de um líder político que afirma que “mulheres devem ganhar menos, pois engravidam”, que em meio a uma pandemia despreza a vida e banaliza 500.000 mortes, chegando inclusive a imitar uma pessoa sem ar, que anuncia que negros devem ser medidos em arrobas e naturalizamos isso, já não estamos cegos? Quando a liderança do país coloca acima da vida de seus cidadãos a economia, não estamos valorizando mais o mundo das coisas? A afirmação, abaixo, de Jung sobre essa necessidade do homem de ir em busca do externo, daquilo que é supervalorizado pela sociedade, coloca o quanto isso pode ser decepcionante.

 

Vi muitas vezes que os homens ficam neuróticos quando se contentam com respostas insuficientes ou falsas às questões da vida. Procuram situação, casamento, reputação, sucesso exterior e dinheiro; mas permanecem neuróticos e infelizes, mesmo quando atingem o que buscavam. Essas pessoas sofrem, frequentemente, de uma grande limitação do espírito. Sua vida não tem conteúdo suficiente, não tem sentido. Quando podem expandir-se numa personalidade mais vasta, a neurose em geral cessa. Por esse motivo a ideia de desenvolvimento, de evolução tem desde o início, segundo me parece, a maior importância. (JUNG, 1961, p.127).

 

É possível associar, portanto, essa cegueira ao momento atual, já que em busca desse excesso, do ter que produzir, produzir, produzir para assim poder consumir o tempo todo, cegamos para a necessidade de reduzir, de compreender o que realmente é importante para nós, como a vida, a convivência, a empatia, o planeta que habitamos.

Falo de Brasil, embora saiba e “enxergue” que a “cegueira” é planetária, mas vou me deter no nosso momento Brasil. Atualmente, vivenciamos o desprezo pela natureza, pelos nossos povos originários, pelas diferenças, pela ciência, pela arte, ou seja, por tudo que nos diferencia e nos torna humanos. Desprezamos e minimizamos a queima da nossa floresta para obtenção de lucro, de garimpo, de produção agrícola. Esquecemos que estamos todos interligados e somos codependentes, o que afeta o planeta me afeta, assim como o que afeta todos os indivíduos humanos, também me afeta.

De acordo com Jung (2015, p. 63) “Individualismo significa acentuar e dar ênfase deliberada a supostas peculiaridades, em oposição a considerações coletivas. A individuação, no entanto, significa precisamente a realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano; (...)” portanto, o individualismo, vai na contramão da individuação, e é a perspectiva que predomina atualmente em nossa sociedade. De acordo com Gilbert Simondon (2020, p. 23) não existe individuação na individualização, já que o ser individual “não pode resolver em si mesmo sua própria problemática”, somos parte do todo, ou seja, a individuação pessoal, está intrinsecamente ligada a individuação coletiva. Ou seja, simbolicamente, a epidemia de cegueira, descrita por Saramago, pode ser considerada com a nossa “cegueira” contemporânea de considerarmos apenas a nós mesmos e não olharmos e repararmos no nosso entorno, no todo em que estamos inseridos e, principalmente, não enxergarmos o quanto somos parte desse todo e dependentes dele.

Outro forte simbolismo a ser destacado é a opção do autor em trazer uma única personagem que enxerga, uma mulher, que não utiliza a sua visão como instrumento de controle ou de domínio sobre o outro. Tal como a própria personagem adverte, ela não é uma "rainha" e é "simplesmente a que nasceu para ver o horror.” Aqui é possível fazer uma analogia com o que vivemos, a resistência das mulheres a um patriarcado que oprime, silencia e mata, uma resistência que não impõe domínio, mas antes clama por parceria e que enxerga a condição degradante da cegueira misógina e machista que atinge a nossa sociedade. De acordo com Jung (1983, p. 257),“Nenhum símbolo é ‘simples’. Simples são apenas os sinais e as alegorias. O símbolo representa sempre uma realidade complexa, que ultrapassa nossas categorias de linguagem e que não pode ser expressa de maneira unívoca.”

Simbolizar o vivido por mulheres em uma sociedade como a brasileira exige, portanto, muito mais, já que muitas de nós, contaminadas pela “cegueira”, vivem a falsa ilusão de que atingimos a igualdade. Isso se deve ao fato de que mulheres também têm acesso a trabalho e Educação e são maioria, hoje, em vários cursos universitários. Mas, é preciso ampliar esse olhar e identificar as reais condições dessa “igualdade”. Como cita Saramago (1995), em um provérbio no início do seu livro, “Se podes olhar vê, se podes ver repara”. E muitas mulheres foram obrigadas a “reparar”, neste período de pandemia, o quanto ainda há para conquistar. Portanto, a relevância simbólica de trazer uma mulher, como a única personagem que enxerga, no meio a uma pandemia de cegueira, que acomete toda a cidade, e do movimento Ele Não[2] se aproximam, porque é como se a voz dessas mulheres buscasse avisar que estavam e estão vendo, reparando as consequências nefastas que poderiam e podem ocorrer àqueles que insistem em não “enxergar”. É importante também destacar o duplo significado da palavra reparar que traz a concepção de olhar mais atentamente, mas também de consertar, de recuperar o que quebrou. Sendo assim, a própria palavra é símbolo da representação do poder do feminino.

Para além da simbologia do feminino existem várias outras, mas o que é relevante e pretensão nessa escrita é revelar o quanto nos deixamos “cegar” diariamente, o quanto não observamos os símbolos que nos levam a esta pandemia da intolerância, do autoritarismo, da indiferença. Afinal, enxergar dói, enxergar nos faz sofrer, mas é preciso considerar que também nos liberta e somente enxergando podemos prosseguir no nosso processo de individuação. Afinal, assim como afirma Saramago (1995), “A pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos pela frente”.

 

Andrea Alencar, Membro Analista em Formação pelo IJEP – Rio.

Analista Didata:   E. Simone Dalvio Magaldi

 

BARTHES, R. “Apresentação [Sobre a semiologia]”. Em: Inéditos, I: teoria. São Paulo: Martins Fontes, 2004

 

EVETTS-SECKER, Josephine. Iniciando uma educação Psicológia. Em: Psicanálise Junguiana: trabalhando no espírito de C. G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2019.

 

JUNG, C. G. ”O Símbolo da Transubstanciação na Missa.” Em: Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. Obras Completas de Carl Gustav Jung, Vol. XI. Petrópolis: Vozes, 1983.

 

_________. O Eu e o Inconsciente. Obras Completas de Carl Gustav Jung, Vol. 7/2. Ed. 27ª, Petrópolis: Vozes, 2015

 

MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. Trad. Jesus Ranieri. 4ª reimpressão. São Paulo: Boitempo, 2010.

 

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira: romance. São Paulo: Cia. das Letras, 1995

 

SIMONDON, Gilbert. A Individuação à Luz das Noções de Forma e de Informação. São Paulo: Editora 34, 2020

 

 

 

[1]  O Prêmio Nobel de Literatura é um prêmio literário sueco que é concedido anualmente, desde 1901, a um autor de qualquer país que produziu “no campo da literatura o trabalho mais notável em uma direção ideal"

[2]  Os protestos contra Jair Bolsonaro, conhecidos como Movimento Ele Não ou #EleNão, foram manifestações populares lideradas por mulheres que ocorreram em diversas regiões do Brasil e do mundo, tendo como principal objetivo protestar contra a candidatura à presidência da República do deputado federal Jair Bolsonaro. As manifestações ocorreram no dia 29 de setembro de 2018, e se tornaram o maior protesto já realizado por mulheres no Brasil e a maior concentração popular durante a campanha da eleição presidencial no Brasil em 2018.


Andréa Alencar - 28/06/2021