VERGONHA NA PERSPECTIVA ARQUETíPICA

Vergonha na Perspectiva Arquetípica

Além do mito de Adão e Eva citado no primeiro artigo deste tema, há os mitos gregos com seus vários deuses, cada um com suas características, que "visitavam" os gregos em diversas situações. Há na mitologia grega um daimon, Aedos, que é a personificação da vergonha, do pudor e representava também, o sentimento de dignidade humana que, por ser dotada de respeito e vergonha, reprimia atos inapropriados dos homens. Seu daimon oposto era Momos, a zombaria.

Analisando pelo ângulo arquetípico poderíamos perceber a vergonha metaforicamente como um deus que nos visita, como pensavam os gregos quando eram invadidos pelos mais diversos sentimentos? Quando eram invadidos por sentimentos de amor por exemplo, era Eros que os visitava. Não havia identificação com o deus, podiam viver aquele sentimento entendendo como manifestação do deus, embora a responsabilidade sobre como lidar com aquela experiência fosse do indivíduo. Tecendo o mesmo paralelo, o sujeito poderia ser visitado pelo "deus da vergonha" sem viver isso como errado ou ameaçador? Pois, quem se sente ameaçada é a consciência que, identificada com valores que pregam o oposto, julga e condena o complexo, travando um embate. E, num círculo vicioso, a consciência unilateralizada se julga insuficiente e inadequada por não atingir os ideais que almeja e reforça o sentimento de vergonha de si.

Mas, quem nunca sentiu vergonha? E, o que levaria grande número de pessoas a viverem a vergonha como uma "identidade"; se autodenominando como tímidas e envergonhadas, se percebendo por esse único prisma? E, mais forte ainda, recebendo um diagnóstico de fobia social?

Observando-se os altos números de pessoas com esse diagnóstico, cabe perguntar o que poderia estar contribuindo para esse fenômeno, que ganha contornos de epidemia. Uma hipótese é o "ideal de extroversão" que permeia nossa cultura.

Vivemos sob o imperativo da extroversão e da necessidade de exposição constante através das mais variadas formas. As redes sociais estimulam e facilitam essa dinâmica que a cultura valoriza cada vez mais. Há toda uma lógica de consumo apoiando esses valores que nossa sociedade incentiva fortemente. Não basta viver algo, é necessário postar; parece que só assim tem validade. Há um estímulo grande para que todos se mostrem como vencedores e, ter sucesso, está associado, via de regra, a aparecer e ser lembrado, receber "likes", ser comentado, pois ter sucesso é "ser visto". Em contrapartida, temos no Brasil 1 em cada 4 pessoas sofrendo de fobia social, um transtorno em que a pessoa justamente foge dessa exposição.

Esse quadro parece ir no caminho oposto ao que é valorizado pela cultura; sugere um movimento "para dentro", um recuo do mundo, um "não querer ou não conseguir mostrar-se como a sociedade espera".

Com base no conceito de Jung sobre os tipos psicológicos, podemos refletir se, pessoas com maior tendência a uma atitude introvertida, poderiam estar sendo levadas a se considerarem "diferentes" dessa cultura extrovertida e, assim terem vergonha de quem são e desenvolverem sintomas de timidez exacerbada ou fobia social, por exemplo. De acordo com Jung: "A consciência introvertida vê as condições externas, mas escolhe as determinantes subjetivas como decisivas. (...) Enquanto o tipo extrovertido se apoia principalmente naquilo que provém do objeto, o introvertido se baseia em geral no que a impressão externa constela no sujeito" (C.G. JUNG, Tipos Psicológicos - §. 692). "O extrovertido se caracteriza por sua constante doação e intromissão em tudo; a tendência do introvertido é defender-se contra as solicitações externas e precaver-se de qualquer dispêndio de energia que se refira diretamente ao objeto, mas criar para si uma posição segura e fortificada ao máximo". (C. G. JUNG, Tipos Psicológicos - §. 624). Vemos aqui que há pessoas que têm esse modo de agir no mundo como característica idiossincrática. Esse indivíduo de disposição mais reservada, mais introspectiva, observadora, pode ser percebido como inadequado, diferente e desvalorizado pelo meio que tem como valor a extroversão.  E, o próprio sujeito passa a se ver dessa forma e se identifica com esse olhar. A introversão em si não representa qualquer problema, é apenas um modo de apreensão do mundo. Pode tornar-se problema a partir do olhar que valoriza somente a atitude oposta e, consequentemente, desvaloriza a introversão. E, dependendo de como o indivíduo vive esse contexto, poderá sentir-se diferente e entrar em sofrimento.

Na reportagem citada anteriormente, um dos entrevistados chegou a dizer que "as pessoas não entendem o tímido e querem que ele seja diferente e a pessoa acaba achando que é anormal". Outro disse "ficar quieto é confortável pra mim". E outro afirmou "nenhum lugar valoriza o tímido". Vê-se por esses comentários que o indivíduo sente que deveria ser diferente para ser valorizado e ter um espaço; ele não pode ser como é. O enfoque da reportagem foi no sentido de apresentar "casos de superação", em que as pessoas com muito esforço, tratamentos e apoio familiar conseguiram "superar" a timidez. A mensagem que fica é que realmente o tímido tem que ser diferente do que é para ter espaço no mundo.   

Jung nos coloca que a psique tende a buscar equilibrar o que está muito exacerbado. Assim, se por um lado, nossa sociedade manifesta uma tendência muito "para fora", para a exposição, por outro lado, está produzindo manifestações opostas a esses valores em um número grande de pessoas que sofrem muito com isso.  Talvez seja uma busca de equilíbrio, já que a psique coletiva também tende a compensar atitudes unilaterais.

Na reportagem vemos que a proposta de tratamento envolve um esforço da consciência para eliminar o sintoma por meio de diversas técnicas e medicações. Ao tentar simplesmente extinguir o sintoma, não estaríamos nos aliando à norma que impõe padrões aos quais todos devemos nos sujeitar, sem considerar as diferenças individuais? Na visão junguiana podemos pensar um caminho diferente, no sentido de "ouvir" o sintoma e entender o que ele pede. O papel do analista nesse caso, seria ficar ao lado do sintoma e auxiliar o paciente a dialogar com ele, ao invés de combatê-lo e eliminá-lo. 

Essas reflexões nos remetem ao conceito de individuação da psicologia analítica: "A individuação, em geral, é processo de formação e particularização do ser individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto, um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. (C.G. JUNG, Tipos Psicológicos - §. 853). "A individuação está sempre em maior ou menor oposição à norma coletiva, pois é separação e diferenciação do geral e formação do peculiar, não uma peculiaridade procurada, mas que já se encontra fundamentada a priori na disposição natural do sujeito. Esta oposição, no entanto, é aparente; exame mais acurado mostra que o ponto de vista individual não está orientado contra a norma coletiva, mas apenas de outro modo." (C.G. JUNG, Tipos Psicológicos - §. 856).

Podemos questionar, então, se o sujeito que tem vergonha de "ser quem é" não estaria valorizando somente o polo coletivo e, desvalorizando o polo individual, sua singularidade. Será que, o mal-estar não surge justamente de um desejo e esforço para tentar corresponder ao ideal cultural e social, desconsiderando a si próprio? Será que, se o indivíduo conseguir entender e aceitar que ele não precisa corresponder a esse ideal e se "der permissão" para ser quem é e se expressar no mundo a seu modo, não diminuiria a pressão e julgamento que tece sobre si e seu sofrimento não diminuiria? Poderia enfim, reconhecer o valor da vergonha, da timidez, ao invés de desvalorizar, rejeitar e continuar a se esforçar para corresponder ao que a cultura prega?

A vergonha é vivida como sintoma para a consciência que está identificada com a norma dominante que determina atitudes de extroversão e exposição como valor. Mas, será que existem outras formas de estar no mundo? Nesse sentido, a consciência precisa ir em direção ao sintoma para ouvi-lo.

Se pudéssemos perguntar à vergonha e à timidez o que elas querem, talvez ouvíssemos algo do tipo: viver de acordo com seu próprio tempo, ter possiblidade de refletir antes de agir, ficar quieta quando quiser, ter tempo para a solidão, poder sensibilizar-se com as experiências, se expor quando e se quiser, ter tempo para elaborar suas próprias ideias, agir com cautela, etc. Tais desejos não atendem ao imperativo de exposição, extroversão, competição, agressividade, velocidade, produtividade, que nossa sociedade impõe. E, por isso, devem ser vividas como "erradas"? Devem ser modificadas, desconsideradas, desvalorizadas? Não poderiam coexistir com as demais formas de ser? No mundo da exposição, pode alguém "não se expor" e ter seu valor preservado? No mundo da extroversão, pode ter lugar para o introvertido?

Podemos pensar que o alto número de pessoas com esse transtorno pode estar apontando para a necessidade de equilibrar a consciência coletiva que parece ter banido Aedos e está muito unilaterizada na extroversão. Nesse sentido, qual o valor da timidez, vergonha, introspecção, introversão? Será que poderiam contribuir para uma maior cautela e temperança nas relações, habilidade para ouvir os outros, por exemplo? A introspecção e sensibilidade não seriam elementos necessários à criação, geração de ideias? A vergonha poderia contribuir para que as pessoas não infringissem normas sociais como vemos hoje em índices alarmantes? Poderia haver menos casos de corrupção se houvesse mais vergonha? Neste tópico especificamente parece estarmos vivendo sob a influência de Momos, zombaria, que é o oposto de Aedos!

Será que a nossa cultura permeada pelos valores de Aedos não seria "mais amigável" e produziria menos adoecimentos?

Por fim uma última pergunta: será que o sofrimento não estaria pedindo ao sujeito para trilhar o seu caminho de individuação e se expressar no mundo respeitando sua subjetividade? Com isso, o indivíduo não estaria dando, de certa forma, sua contribuição para ajudar a equilibrar a consciência coletiva, justamente por ser como é?

Teresa Vieira Gama

Psicóloga, Membro Analista em formação pelo IJEP

Especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Cinesiologia Psicológica

Tel: (11) 99857-2680 - Atende na Granja Viana - SP

e-mail: tvgama@terra.com.br

Referências:

BILENKY, Marina Kon. Vergonha - Série O que fazer? - Blucher: 2016

HOPCKE, Robert H. Guia para a Obra Completa de C. G. Jung - Petrópolis: Vozes, 2012

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Vol. VIII/2 - Petrópolis: Vozes, 1998

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Vol. VII/2 - Petrópolis: Vozes, 2000

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Vol. IX/1 - Petrópolis: Vozes, 2002

JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Vol.VI - Petrópolis: Vozes, 2013

JUNG, Carl Gustav. Estudos Experimentais. Vol. II - Petrópolis: Vozes, 1997

SAMUELS, Andrew. Dicionário crítico de análise junguiana - Imago Editora - Rio de Janeiro, 1988 - Edição Eletrônica © 2003 Andrew Samuels/Rubedo

 


 https://pt.wikipedia.org/wiki/Aedos_(Mitologia) - consultado em 02/06/2019

Na mitologia grega, Aedos (em grego antigo: Αἰδώς) ou Aesquine (em grego antigo: Αἰσχύνη) era uma Daemon, a personificação da vergonha, da humildade e do pudor, sendo ao mesmo tempo a divindade que representava o sentimento da dignidade humana, tendo como qualidade o respeito ou a vergonha que reprime aos homens do inapropriado. Seu Daemon oposto era Momos, a zombaria, sua equivalente romana seria Pudor ou Pudicia.[1]

 https://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2019/05/10/veja-a-integra-do-globo-reporter-sobre-a-timidez.ghtml


- 19/06/2019