A COMPULSÃO PELA CATARSE E O DESRESPEITO AO MUNDO INTERIOR

A COMPULSÃO PELA CATARSE E O DESRESPEITO AO MUNDO INTERIOR Psicologia Junguiana

A busca por um viver mais satisfatório passa, necessariamente, pela ampliação de nossa compreensão sobre nós mesmos e, consequentemente, sobre o mundo que nos cerca. Mas, essa ampliação de consciência é construída gradativamente, na medida em que passamos a reconhecer e a compreender, com honestidade emocional e intelectual, os conflitos internos que nos perturbam e interrompem o nosso movimento de alma ou, nas palavras da psicologia analítica, o nosso processo de individuação.

Na prática, em breve síntese, isso significa desenvolvermos condições mentais e emocionais para emprestarmos aos fatos de nossa vida melhor compreensão, assumindo verdadeiramente a responsabilidade para com a nossa evolução, através de ações mais alinhadas à nossa essência, direcionando nosso esforço para construção de uma vida mais plena e integral, na pior das hipóteses, obtendo condições necessárias para lidarmos com o inevitável sofrimento.

Esse movimento é muito gratificante, pois nos habilita à autorrealização, sendo a psicoterapia junguiana um dos recursos possíveis à manifestação plena da alma. Entretanto, esse processo nem sempre é rápido, muito menos indolor. Há um caminho interno a ser percorrido, cuja trilha nem sempre se apresenta de bom grado ao viajante.

Jung, em A prática da psicoterapia (2013, §122, Ed. Vozes), afirma que o processo psicoterapêutico é composto no geral por 4 etapas: confissão, elucidação, educação e transformação. Na fase de confissão trazemos à tona nossos segredos (inclusive aqueles ocultados da própria consciência), nossas idiossincrasias, aliviando nossa alma do peso dos nossos “pecados”. Trazemos à luz os complexos, esses conteúdos psíquicos carregados de afeto que servem de base para nosso comportamento neurótico. Experimentamos, portanto, a catarse e o início da cura, porque quando secretamos os segredos, eliminamos os venenos paralisantes e sintomáticos.

Já na fase da elucidação, o analista nos auxilia a compreendermos melhor os complexos e os conteúdos sombrios. Isso acontece por conta da capacidade empática que irá ativar o processo transferencial, onde o indivíduo adquire ciência da relação causal entre os fatos da sua vida e a constelação de seu comportamento perturbador, prospectiva

Na fase de educação, fortemente trabalhada pela escola adleriana, o indivíduo já possuidor de importantes conhecimentos sobre si, desenvolve caminhos para a adoção de uma vida que reflita o aprendizado obtido, reeducando-se, ajustando-se psicologicamente à nova realidade de sua consciência. Aqui desvela-se uma fase de muito trabalho e esforço consciente na construção de um novo viver voltado tanto para sua adaptação à sociedade, quanto para seu mundo interior.

Por fim, a fase da transformação, que trabalha a necessidade da alma de ir além do mero ajuste à coletividade, temperando sua adaptação com a própria individualidade. Tal fase, importante mencionar, não diz respeito apenas ao analisando, mas também ao próprio terapeuta, o qual experimenta igualmente os efeitos do encontro alquímico desta relação transferencial, desdobrando-se em um processo de autoeducação, ativando o curador ferido do médico e toda potencialidade de autocura do analisando.

Como facilmente se percebe, não é um processo simples e justamente por exigir prontidão, comprometimento e muito trabalho, o percurso é abandonado ou, em muitos casos, inicia-se a busca frenética por atalhos geralmente perigosos. E é justamente sobre essas estradas vicinais que gostaria de falar. Na prática psicoterapêutica tenho notado que muitas pessoas chegam ao consultório trazendo em sua bagagem inúmeras e variadas “grandes experiências psíquicas”.

Geralmente são pessoas que caminham de “tenda em tenda”, procurando uma fórmula milagrosa para sua existência ou uma grande revelação sobre si que as leve, automaticamente, um estado mais elevado de alma, mas que, infelizmente, na maioria das vezes, funcionam como vivencias pirotécnicas, que produzem estados alterados de consciência, sem conexão, de fato, com a psique.

Há muita pressa e impaciência com a jornada do autoconhecimento e isso talvez seja um sinal do nosso tempo, um tempo pautado pelo imediatismo e pela superficialidade. Mas, também é curioso ressaltar que a forma como essas experiências são narradas acabam remetendo àquele tipo viciado em adrenalina, em fortes emoções, que busca constantemente superar seus próprios limites físicos através de esportes radicais, por exemplo. Ocorre que, da mesma maneira que corpo possui limites, a alma também os tem, como veremos adiante.

Nesse paralelo, parece haver uma fascinação e até o prazer nas experiencias emocionais, com ab-reação e exoneração afetiva, apesar de serem incapazes de produzir a necessária dessensibilização e ressignificação intencionadas. O indivíduo passa a agir como um verdadeiro caçador de catarses, ficando estagnado nesse primeiro estágio do processo de aprofundamento, colecionando inúmeras informações sobre si.

De fato, a catarse pode promover um grande alívio à alma, mas o conhecimento adquirido nem sempre lhe será útil. Em se tratando do inconsciente, tomar ciência sobre determinadas questões até então reprimidas poderá comprometer irreparavelmente a sanidade física e mental do indivíduo.

A ansiedade do ser humano em resolver seus conflitos, suas insatisfações, suas limitações e bloqueios, aliada a necessidade de êxtase em tal processo, faz que com certos conteúdos sejam acessados através de subterfúgios ou técnicas, nem sempre convencionais, desrespeitando os limites do ego, colocando-o em risco de dissociação, e a própria psique, violando-a.

Através dessas técnicas alcança-se de modo artificial a vivência ou o reconhecimento de afetos sobre os quais a pessoa não tem qualquer condição de elaboração, tanto internamente, claro, como também externamente, diante daquele ambiente/contexto onde tais conteúdos emergiram, sem o cuidado ou apoio especializado.

A verdade é que a lida com o mundo interno é de vital importância para o amadurecimento do homem, mas esse diálogo precisa acontecer de maneira respeitosa e prudente, evitando o risco de subestimar os limites do ego.

Jung, em O desenvolvimento da personalidade (2013, §260, Ed. Vozes), assinala a importância do tema:

 “Apenas na consciência algo pode ser corrigido. O que é inconsciente permanece inalterado. Se quisermos provocar alguma alteração, precisamos passar para a consciência os fatos inconscientes, a fim de submetê-los a uma correção. [...] Isto, porém, é uma espécie de intervenção cirúrgica, que pode facilmente ter más consequências se faltar a preparação técnica adequada.  Requer-se boa dose de experiência médica para saber quando e onde se deve efetuar essa intervenção. Os leigos subestimam infelizmente os perigos que tais intervenções podem acarretar.”

E prossegue:

“Ao trazer-se para a consciência conteúdos inconscientes, provoca-se artificialmente um estado muito semelhante ao de uma doença mental. A grande maioria das doenças mentais (desde que não sejam diretamente de natureza orgânica) se fundamentam na dissociação da consciência, que é provocada pela invasão incessante de conteúdos inconscientes.” (grifos meus)

Note-se a gravidade da afirmação. Nesse contexto podemos estender a referência que Jung faz aos leigos tanto ao médico despreparado ou ignorante sobre o poder do inconsciente, como às pessoas que se lançam a qualquer “curador” a fim de obter a desejada expansão psíquica.

Citarei algumas dessas experimentações trazidas pelos clientes no consultório, ressalvando que a intenção não é fazer juízo de valor sobre tais métodos, mas sim sobre a forma como as pessoas em geral se valem desses recursos para satisfazerem a sua necessidade, muitas vezes compulsiva, pela experiencia catártica que muitas vezes aparenta como revelações de conteúdos inconscientes.

A Ayahuasca figura como um dos principais recursos buscados já que é uma substância alteradora da consciência e provoca uma forte ampliação da percepção psíquica, permitindo o acesso a memórias perdidas e a estados emocionais incomuns à vivência cotidiana. Meditações, vivências e psicodramatizações, com o objetivo de rebaixar a consciência e dar vazão a elementos inconscientes, também são relativamente comuns. Assim como, o uso de drogas, como a maconha, que provocam alterações mentais, também são muito utilizadas para a estimulação dos processos criativos.

A hipnose, muitas vezes aplicada em um contexto de diversão, quando usada em busca da manipulação mental, sem a devida prontidão interior do paciente, apesar de aflorar conteúdos reprimidos, pode produzir distorções históricas ou justificativas limitantes para a expansão da consciência.

A constelação sistêmica, particularmente em alta nos últimos tempos, e que tem atraído muitos curiosos, trata-se de uma técnica onde o complexo é revelado ao indivíduo através de uma dinâmica trabalhada por voluntários e conduzida por facilitadores. Nesse caso vale destacarmos: ao contrário dos outros processos citados, na constelação a forma como o complexo se revela ainda poderá afetar significativamente os próprios voluntários da dinâmica, que acabam entrando em contato com as questões inconscientes do participante, podendo desencadear perturbações em sua própria saúde através da manifestação de sintomas físicos, inclusive.

Esses métodos parecem ser os mais buscados e a meu ver promovem a emersão dos conteúdos inconscientes, aplacando por um tempo a angústia existencial do indivíduo, oferecendo-lhe geralmente a experiência da catarse. Contudo, quando tais técnicas são buscadas como terapia em si, passa-se a elevar consideravelmente os riscos à saúde do indivíduo compulsivo pelas catarses, abrindo caminho ao  adoecimento físico (manifestação sintomática do complexo), à ocorrência de um surto psicótico, a crises emocionais de um forma geral e até, infelizmente, à completa desintegração daquela personalidade, justamente porque não foi prestado o devido respeito aos motivos pelos quais tais conteúdos estavam ocultos sob a sombra da inconsciência.

Nesse sentido, o analista Junguiano Donald Kalsched, membro do C. G. Jung Institute em Nova York, em sua interessantíssima obra O mundo Interior do Trauma: defesas arquetípicas do espírito pessoal (2013, pp.16, Ed. Paulus), demonstra como são poderosas as defesas psíquicas organizadas diante de um choque ou trauma, em especial quando ocorridos durante a primeira infância. Em suas palavras:

“É a essência imperecível da personalidade – a que Winnicott se referia como o “Verdadeiro Eu” (Winnicott, 1960a) e que Jung, buscando um conceito que reverenciaria as suas origens transpessoais, chamou de Self. A violação desse núcleo interior da personalidade é inconcebível. Quando outras defesas falham, as defesas arquetípicas não medirão esforços para proteger o Self – chegando mesmo ao ponto de matar a personalidade que abriga esse espírito pessoal (suicídio).”

Segundo o autor, na ausência de um ego estruturante capaz de lidar com o evento traumático, uma segunda linha de defesa é ativada. Uma defesa arcaica, primitiva, que tem o único propósito de preservar a integridade do espírito pessoal, custe o que custar. Nosso maior instinto é o de autopreservação e nossas travas e bloqueios psíquicos, logo, não existirão à toa. “Enganá-los” mediante as técnicas já mencionadas – e similares - utilizadas fora de um adequado contexto analítico, poderá colocar, portanto, a própria vida em risco. Porque quando o ego está muito frágil ele, defensivamente, fica fortemente estruturado, correndo o risco de desestruturar-se quando exposto prematuramente a conteúdos para os quais ainda não tem prontidão.

É claro que o analista, quando necessário, sopesando todo o seu contexto e o do paciente, se valerá de técnicas (inclusive de algumas citadas acima) que forcem os conteúdos sombrios à luz, devendo ser um preciso cirurgião nesse caso, como mencionado por Jung. Mas é sempre desejável que a sombra emerja espontaneamente pelas forças do próprio analisando durante o processo de análise, sendo a dialética, a arteterapia e o trabalho com os sonhos valiosos recursos. E nesse contexto, fundamental frisar que as travas psíquicas nunca deverão ser ignoradas, mas precisam ser compreendidos, respeitadas e devidamente trabalhadas antes de serem abandonadas ou destruídas.

Diante de todo o exposto, a ideia aqui não é demonizar a busca pelo conhecimento interior através do processo catártico, pois, como reforça o próprio Jung ao tratar das etapas do processo analítico, nenhuma fase é mais importante do que a outra, devendo a tocha do conhecimento ser passada adiante, a cada passo dado pelo explorador. Cada fase contém o seu tesouro.

A ideia do presente artigo é tão somente demonstrar a importância de se respeitar a relação com o inconsciente, em especial durante o primeiro estágio do processo de autoconhecimento, pois esse é guardião de segredos sobre os quais muitas vezes deposita-se a própria existência pessoal, devendo ser explorado sempre dentro de um adequado contexto analítico.

Rodrigo Emendabili de Queiroz

Analista Junguiano em formação pelo IJEP - Terapeuta Floral

rodrigo_eq@hotmail.com | @floraiscomjung

Referências Bibliográficas

JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013

JUNG, Carl Gustav. O Desenvolvimento da personalidade. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013

KALSCHED, Donald. O mundo interior do trauma: defesas arquetípicas do espírito pessoal.1ª ed. São Paulo: Paulus, 2013

MAGALDI FILHO, Waldemar. O sentido da análise na psicoterapia junguiana. Site www.ijep.com.br. Artigos. São Paulo.


Rodrigo Emendabili de Queiroz - 12/03/2020