CORONAVÍRUS COMO PROCESSO ALQUÍMICO DE TRANSFORMAÇÃO

Coronavírus como Processo Alquímico de Transformação coronavirus

Coronavírus como Processo Alquímico de Transformação

 

“O homem sente-se isolado no cosmos, porque, já não estando envolvido com a natureza, perdeu a sua “identidade emocional inconsciente” com os fenômenos naturais. Como não há mais o contato com a natureza, a energia emocional profunda fica perdida”. (Jung, apud Chiesa, 2014, p. 102).

 

Descoberto em 31/12/19, a partir de inúmeros casos registrados na China, o coronavírus (COVID-19), de acordo com a OMS - Organização Mundial de Saúde “é uma família de vírus que causa infecções respiratórias”.

O coronavírus recebe esse nome por ter o formato de uma coroa, portanto, um símbolo e, como tal, traz consigo a representação de algo. Os símbolos são meios de manifestação de conteúdos inconscientes (JUNG, 2014) e, diferente do signo que é uma unidade que representa algo conhecido por todos, o símbolo é representação de algo desconhecido, misterioso. No caso da estrela de Davi, por exemplo, a estrela em si é um signo e o que ela representa para cada um, de acordo com seu momento atual, suas experiências e vivências é o símbolo.

Em forma de coroa, esse vírus se apresenta como uma realeza, impondo às pessoas algo que deve ser cumprido sob pena de não o fazerem. O COVID-19 provoca febre nos infectados e, pela febre, traz o calor, a necessidade da queima, da combustão, da transformação alquímica. Nesse processo, na tentativa de transformar, de tirar algo de dentro que não está bem e pôr para fora, provoca ainda tosse e espirros.

Ramos (2006) observou que a expressões do fenômeno psique-corpo e suas alterações fisiológicas sincronísticas, se davam por meio de um complexo que se manifesta, ajudando a uma compreensão mais ampla da doença.

Jung traz o conceito da Alquimia como um sentido de elevação, de evolução pessoal, uma busca de se chegar a essência do ser humano. Em vasos alquímicos com formato de útero, por meio de um calor adequado, a obra alquímica gera a transformação de metais, como o chumbo, em ouro. Quando falamos do COVID-19, precisamos nos perguntar o que precisa se transformar em nós e no mundo.

O vírus se propaga mais facilmente em lugares frios (outono e inverno) e para se evitar o contágio da doença é preciso manter uma alimentação saudável, beber bastante água, vitamina C e D e higiene (lavar as mãos de forma adequada). Em outras palavras, é preciso manter o corpo aquecido, saudável, em contato com a natureza, alimentando-se de frutas, tomando sol e praticando hábitos de higiene. Se precisamos de todas essas coisas, significa que elas estão nos faltando. E de fato estão!

Cada vez estamos mais distantes das pessoas, abraçamos menos, beijamos menos, quase não olhamos mais nos olhos do outro mesmo quando esse outro nos fala. O contato humano, com os bichos, com a natureza parece estar sendo cada vez mais substituído pelo contato digital. Não se para mais para fazer uma ligação telefônica, para se ouvir a voz do outro, para ir a um parque, acariciar um bicho de estimação olhando para ele e sentindo o amor que ele nos transmite. Tudo pode ser resolvido com trocas de mensagens via celular. Encontros pessoais entre amigos e família são substituídos pela busca incessante das redes sociais para divulgações e curtidas de fotos e conteúdos vazios, que pouco ou nada dizem de significativo a si e ao outro. As selfies demonstram tomar conta de um grande vazio existencial, onde nas fotos todos aparecem felizes e plenos, ainda que na vida real seja bem diferente. A busca desmedida por mais e mais dinheiro, a ganância em detrimento a qualidade de vida ganham espaço. E, nesse cenário, o contato com o Sagrado se perde.

Em pouco tempo o coronavírus se alastrou e, de uma epidemia, estamos vivendo uma pandemia. Pan significa todo. Estamos todos sob aviso e precisamos resgatar nossa essência, nos transformar, mudar o todo que não está bem à nossa volta e a nós mesmos, do contrário, inexoravelmente pagaremos o preço que essa realeza vem nos imputar.

As pessoas, com medo ou não da doença, estão todas sendo obrigadas a manterem distância uma das outras, a ficarem isoladas em suas casas, olhando para si mesmas num chamado a reflexão. Já que estamos colocando as conexões tecnológicas, midiáticas, acima do contato humano, como é de fato estarmos distantes das pessoas, desejar vê-las e não poder? Para mudarmos algo, temos que desejar essa mudança, então, teremos que desejar voltar a ter essas pessoas que abrimos mão, olhar em seus olhos, estar inteiros com ela. Sentiremos falta e teremos que desejar abraçar e sermos abraçados, beijar e sermos beijados. Isolados em nós mesmos, em nossas casas, precisaremos estar em contato com os mais próximos, com nossos bichos e (re)aprender a conviver com eles, entendendo o sentido mais amplo e a importância dessa convivência.

Claro que não significa que somente as pessoas que adoecerem do COVID-19 precisam fazer essa transformação. Ela é coletiva. É para todos, pois coletivamente, ao longo da nossa história e de nossos antepassados, é que chegamos aonde estamos. Não caminhamos sozinhos, mas no coletivo, de modo que as nossas decisões, todas as decisões da humanidade, não refletem apenas em que as toma, mas no todo.

Em nome muitas vezes do que nem sabemos, mas por uma identificação e projeção sombria de nós mesmos no outro, pelo ódio, racismo, homofobia, misoginia, desigualdade social, estamos destruindo uns aos outros, afastando-nos deles e afastando-os de nós. Por ganância, poder e ignorância estamos destruindo cada vez mais a natureza, destratando e afastando os animais de nós, vendo-os serem destruídos nas queimas das florestas, sem muito ou nada nos movermos para mudar isso. Com isso só perdemos, mas parece que não nos damos conta.

Com medo de faltar alimento, papel higiênico, álcool gel, dos mercados fecharem, de não poderem passear, viajar, preocupadas com suas coisas apenas, as pessoas saem aos mercados limpando as prateleiras, mas se esquecem das crianças famintas em toda parte do mundo, da pobreza, da miséria que assola muitas vidas, se esquecem daqueles que tentam sair vivos da guerra, dos que buscam a liberdade. Sabemos que isso tudo existe, mas como não é diretamente conosco, parece que ressoa nos nossos corações e, embora sejamos informados de tudo isso, não sentimos e, assim, vivemos na indiferença a realidade do outro, às suas dores e pedidos de ajuda.

Esse momento de pandemia é um Chamado claro do Self para nos reaproximarmos do outro, para sermos mais empáticos, olharmos nos olhos, buscarmos mais o contato humano do que o digital, reaproximarmo-nos da natureza usufruindo de tudo o que de bom ela pode nos proporcionar, suas frutas, sombra, troca de oxigênio. É o momento de olharmos para os animais com mais amor, de ajudarmos as pessoas que precisam e não mais destruí-las ou deixá-las a mercê de sua própria sorte. Precisamos reintegrar em nós todos os reinos, mineral (bebermos água), vegetal (retomarmos o contato com natureza, comermos frutas etc.) e animal (cuidarmos e zelarmos pelos bichos), para, finalmente, mais inteiros, chegarmos ao humano. É preciso usar as mídias sociais com responsabilidade, tomando muito cuidado com o que se divulga para não se reproduzir fake news, postar conteúdos com sentido, significado e não mais coisas vazias. Não é tempo mais de olhar para fora, mas de se voltar para dentro, para a nossa essência.

É mais do que chegada a hora do re-ligare, de nos reconectarmos com o Sagrado e, com um Ego colaborativo, deixarmos que o Self dirija a carruagem da nossa vida e nos reconduza ao nosso Chamado, livrando-nos de todas essas doenças que nós mesmos, coletivamente, atraímos como forma de nos reconduzir à nossa essência, à nós mesmos.

Jung (2013) já há muito tempo nos dizia “se pudéssemos encarar esse processo por outro prisma que não o pessoal, se pudéssemos, por exemplo, supor que não somos nós os criadores pessoais da nossa verdade, mas os seus representantes, simples porta-vozes das necessidades psíquicas contemporâneas, muito veneno, muita amargura poderia ser evitada, e nosso olhar estaria desimpedido para enxergar as relações profundas e impessoais da alma da humanidade”.

 

Andreia Araujo – Membro Analista em formação pelo IJEP

Contatos: 11 99730-8737 / deh.faraujo@gmail.com – Vila Mariana/SP.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 CHIESA, Regina F. O Diálogo com o Barro. O Encontro com o Criativo. 3 ed. São Paulo. Casa do Psicólogo, 2014.

JUNG, Carl Gustav. A Prática da psicoterapia. 16 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

_________________. Arquétipos do Inconsciente Coletivo. 11 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

_________________. Psicologia e Alquimia. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.       

RAMOS, Denise Gimenez. A Psique do Corpo: A Dimensão Simbólica da Doença. 3ª. Ed. São Paulo, Summus, 2006.

 

 


Andréia Araújo - 18/03/2020