FIBROMIALGIA: A DOENÇA DAS AMARRAS FAMILIARES

Fibromialgia: A Doença das Amarras Familiares fibromialgia

De acordo com a SBR - Sociedade Brasileira de Reumatologia, a fibromialgia (FM) é “uma síndrome caracterizada por dor muscular generalizada crônica, dor à palpação da musculatura, alteração de sono, cansaço e problemas com o humor, a concentração e a memória”. Crônica que é, dura mais de três meses seguidos, todavia, não apresenta inflamação aonde está localizada.

Segundo dados levantados pela SBR, “a FM é bastante comum, afetando 2,5% da população mundial, sem diferenças entre nacionalidades ou condições socioeconômicas. Geralmente afeta mais mulheres do que homens e aparece entre 30 a 50 anos de idade, embora existam pacientes mais jovens e mais velhos com FM”. A MYOS - Associação Nacional Contra a Fibromialgia e Síndrome da Fadiga Crônica, buscando detalhar ainda mais esses indicativos, afere que “a doença afeta homens, mulheres e crianças de todas as idades, etnias, estatutos. Estima-se que afete, mundialmente, cerca de 2% a 5% da população adulta, dependendo dos países, em que 80% a 90% são mulheres entre os 20 e os 50 anos e a incidência aumenta progressivamente com a idade. Pode ser diagnosticada mais frequentemente na idade adulta, mas também pode aparecer em idosos ou em crianças e adolescentes”.

A FM não possui exames precisos para diagnóstico laboratorial, sendo a avaliação clínica a principal forma de diagnosticar a doença. Os exames laboratoriais, nesse caso, servem para auxiliar no afastamento da hipótese de doenças com sintomas semelhantes que também causam fadiga e dor no corpo, tais como: tais como hipotireoidismo, artrite reumatoide, lúpus e Síndrome de Sjögren.

Por não ser tão facilmente identificada a doença, não raras vezes, o doente pode ser confundido com alguém que se queixa sem motivos, fazendo com que seja submetido não somente a uma forte dor crônica, mas também a um sofrimento psíquico.

Dentre os sintomas da FM está presente o cansaço crônico, insônia, sono intermitente e não reparador, sensibilidade cutânea, dor após esforços físicos, dores de cabeças, dores musculares e/ou distúrbios gastrointestinais. Pacientes com FM, de acordo com estudos cerebrais realizados por médicos, parecem apresentar uma maior sensibilidade a dor.

Ramos (2006) observou que a expressões do fenômeno psique-corpo e suas alterações fisiológicas sincrônicas, se davam por meio de um complexo que se manifesta, ajudando a uma compreensão mais ampla da doença. Assim, como toda doença, a FM também é psicossomática, apresentando-se tanto no soma (corpo) como na psique.

Nessa ótica, interessante observarmos como, semelhante a antiguidade, o corpo continua sendo o lugar do mal, só que não mais açoitado com chicotes, mas martirizado de outras maneiras, sendo a doença advinda da consequência do pecado e merecimento, como forma de autopunição.

Para Platão a dor era proveniente dos maus espíritos e dos Deuses. A doença é muitas vezes uma penitência, como no mito do herói, em que a pessoa se vê como um herói decadente e se pune.

A dor pode ser compreendida como um castigo, como um demônio, é a sombra atuando e, seguindo por esse pensamento, a psicologia Junguiana nos permite olhar para a fibromialgia a partir do pensamento do martírio cristão, onde a mortificação do corpo vem como forma de purificação da alma e redenção dos pecados, como um castigo incutido de culpa e sofrimento por um fracasso.

Dissecando a palavra fibromialgia, fibro significa fibras, laços, relações; mio é músculo, força e potência; algia denota dor física e/ou psicológica. Isso nos permite pensar na fibromialgia como uma revelação de um sentimento de fracasso e impotência frente a laços familiares e outros tantos laços que estabelecemos ao longo de nossas vidas e ficamos aprisionados a eles, manifesto por meio da dor e do martírio físico e psíquico.

Diante da tentativa de movimento, o corpo encontra formas de se paralisar pela dor, para então ficar imóvel. Imobilizado pela dor advinda de uma autopunição por uma culpa, o doente não consegue ir para vida e caminhar rumo ao seu processo de individuação, pois, para ele fazer isso denota fugir das obrigações familiares, assim sua liberdade significa submissão, seu prazer representa dever e ele fica aprisionado, amarrado à essas fibras familiares.

O corpo é a visibilidade da alma, da psique, e a alma é a experiência psicológica do corpo. Os sintomas físicos são retratos simbólicos do complexo patológico. (JUNG, 2011). Assim, a doença vem como tentativa de libertar o indivíduo, paralisando-o e fazendo-o repensar sobre sua vida, suas dores físicas e emocionais, suas interdições, suas amarras.

Nesse processo, psicoterapia junguiana pode ser de grande auxílio, uma vez que facilitará o contato do paciente com sua dor simbólica, ampliando seus sintomas e seus sonhos, ajudando-o a restabelecer uma conexão saudável com seu inconsciente, facilitando então o re-ligare - fator determinante para a restauração da saúde.

 

Andreia Araujo – Membro Analista Junguiana em Formação pelo IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa.

Contatos: 11 99730-8737 / deh.faraujo@gmail.com – Vila Mariana/SP.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MYOS, Associação Nacional Contra a Fibromialgia e Síndrome da Fadiga Crônica. https://myos.pt/. Acesso em 10/12/2019.

JUNG, Carl Gustav. Estudos Experimentais. 2a. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

SBR, Sociedade Brasileira de Reumatologia. https://www.reumatologia.org.br/. Acesso em 21/01/2020.

RAMOS, Denise Gimenez. A Psique do Corpo: A Dimensão Simbólica da Doença. 3ª. Ed. São Paulo, Summus, 2006.

 


Andreia Araujo - 25/03/2020