OS CÃES COMO COAUTORES DO NOSSO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Os cães como coautores do nosso processo de individuação Psicologia Junguiana

Esses dias soubemos da partida da Anima, a cachorrinha da Simone e do Waldemar do IJEP, que tantas vezes nos recebeu e esteve presente em muitos dos nossos dias de supervisão e aulas, inclusive na nossa própria terapia pessoal. E assim ela se foi, levando parte de nossa história e de nossos segredos mais íntimos.

Também presenciamos tantos amigos e nós mesmos a passar por essa despedida. Já vi meus pais chorarem e não foi quando me machuquei rs, mas quando se despediram dos nossos mascotes. Minha irmã quando chorava, era com o Xuxo que desabafava.

Isso me fez pensar sobre nossa convivência com esses seres que alegram tanto nossa vida com sua espontaneidade, sua curiosidade para quem tudo é sempre novo, seu poder em nos cativar, sua companhia que nos permite sermos simplesmente nós mesmos. Cão, imagem da lealdade, fidelidade, companheirismo e amizade mas como todo arquétipo seu valor se dará de acordo com a experiência que temos com ele. 

…o cão assumiu um lugar central em inúmeras mitologias, como guia entre os mundos da vida e da morte, do conhecido e do desconhecido, do humano e do animal, e, simbolicamente, entre a mente consciente e a selva da psique inconsciente da alma.

“No seu papel de psicopompo, abrindo-nos o caminho entre os opostos da escuridão e da luz internas, da vida e da morte, o cão surge ora para nos ferir ora para nos curar. Ele persegue-nos, encaminhando-nos furiosamente pelas nossas próprias paixões à solta, na direção de uma autenticidade mais profunda.” (RONNBERG,pg 296)

O papel do cão na história do homem é tão importante e com um potencial tão transformador que ele está representado em inúmeras culturas, tanto em mitologias quanto nas artes.

Em muitas imagens aparece aos pés do sábio ou do santo como se com sua presença auxiliasse no pensar. Personagens que enriquecem nossa cultura desde a infância, como Totó do Mágico de Oz, o parceiro Snowy de Tintin, o Bidu, primeiro personagem criado por Maurício de Souza. Lassie, Fang que acompanhou Hagrid em Harry Potter por tantos lugares, Baleia de Vidas Secas, Flush de Virgínia Wolf, o cão que lambia as lágrimas no Ensaio sobre a Cegueira, entre tantos.

Jung (2012) traz que sua figura entrou para a alquimia ocidental como um Tratado Árabe de Kalid “Liber Secretorum” e representa uma parte da prima-matéria. 

“O cão se distingue na história do símbolo por uma riqueza extraordinariamente grande de relacionamento, que eu não gostaria de modo algum de esgotar aqui. Ao lado do paralelo gnóstico Logos-canis, existe também  o paralelo cristão, que é Christus-canis, transmitido pela fórmula mitis electis, terribilis reprobis (suave com os escolhidos  e terrível com os condenados), isto é, um pastor verus (verdadeiro pastor). [...] Por causa de seu rico contexto simbólico o cão é um sinônimo apropriado para a substância de transformação.” (JUNG §169)

No tarô o cão puxa as calças do Louco, que não olha por onde anda. Ele alerta para o desatino do ser humano e o convida para a atenção plena.

Cães cujos sentidos nos fazem inveja e por isso nos ajudaram a chegar a lugares onde não teríamos ido. Vêem o que não vemos, farejam o caráter, percebem o ambiente, seus ouvidos alcançam qualquer ameaça a seu dono sendo capaz de sacrificar a vida para protegê-lo. A segurança de seus instintos impressiona.

Guimarães Rosa diz até que tem gente que tem alguns sentidos tão desenvolvidos como os cães:

“Os outros têm uma espécie de cachorro farejador, dentro de cada um, eles mesmos não sabem. Isso feito um cachorro, que eles têm dentro deles, é que fareja, todo o tempo, se a gente por dentro da gente está mole, está sujo ou está ruim, ou errado... As pessoas, mesmas, não sabem. Mas, então, elas ficam assim com uma precisão de judiar com a gente…”(fala do Dito, personagem de Campo Geral, de João Guimarães Rosa.)

Ao contrário, há também os cães que têm características humanas como comenta a  psiquiatra Nise da Silveira, que em 1955 já falava dos benefícios do convívio entre seus pacientes esquizofrênicos com cães e gatos adotados pela instituição onde trabalhava:

“Eu gosto muito de todos os animais. Admiro muito o cão. Me sinto humilhada diante do cão. Respeito o cão, porque o cão tem uma qualidade que eu acho belíssima e da qual eu me sinto distante, que é a infinita capacidade de perdoar. Dê um passo que se dê ele é fiel. Nunca se ouviu contar que um cão fizesse uma "treta" com seu dono, ou que fosse infiel, que traísse sobre qualquer forma o seu dono. Eu tinha cães em Maceió, porque morava numa casa grande. O gato não tem essa capacidade de perdoar, como eu não tenho. No Hospital, introduzi os animais como ajuda para os doentes, como co-terapeutas. Um analista americano, de quem eu tenho um livro costumava trabalhar com um cão no consultório. Como aliás Freud trabalhava com um cão no consultório; Jung trabalhava com um cão no consultório. Marie Louise Von Franz, com quem eu fiz análise, trabalhava com um cão no consultório. Aqui o cão não entra nos lugares.” (SANTOS)

Hoje em dia esses animais já são reconhecidos como co-terapeutas através da TAA (Terapia Assistida por Animais). Mas nem todo animal nasceu para essa “profissão” pois ele precisa ser tranquilo e ter uma personalidade que permita ser abraçada e apertada e o cão é unânime em sua capacidade de troca afetiva. A ajuda desses co-terapeutas é comprovada e beneficia a recuperação de qualquer tipo e paciente estimulando crianças, melhorando o quadro de portadores de autismo, acalmando hiperativo, reduzindo agressividade e stress de pacientes com  Alzheimer, a sensação de solidão nos idosos, ansiedade e sintomas depressivos.

Sem falar nas outras profissões em que atua como: cão-guia emprestando seus olhos, como bombeiros ajudando nas tragédias, como policiais na caça a entorpecentes, “garotos”- propaganda na publicidade. Mas para mim, a profissão em que mais se sobressai é a de professor na matéria: amar.

Schopenhauer admitiu certo dia que não queria ter vivido se não existissem cães. (BACHMANN, 2017)

Empatia é algo que também desenvolvemos através do convívio com o cão pois precisamos usar de outra linguagem que não a falada para atender suas necessidades. Precisamos perceber seu olhar, seu comportamento para nos comunicarmos, e por isso,  me faz pensar no quanto aprendemos nessas relações que podem nos presentear com a sutileza e delicadeza, atributos da ordem da própria alma. 

Além disso, a cumplicidade,  que vemos em histórias como a de Argos (“o que tem luz”) e Odisseu que, ao chegar a Ítaca, após 20 anos, disfarçado de mendigo, encontra Argos deitado, velho e cansado ao que  este reconhece seu dono de uma só vez,  porém tem apenas a força suficiente para mexer seus ouvidos e abanar a cauda, mas não pode se levantar para cumprimentar seu mestre. Assim que Odisseu passa (mas não sem derramar uma lágrima por seu lindo cão deitado em adubo) e entra em sua sala, Argos morre. Nos admira a tamanha certeza do reencontro, que mantém Argos fiel ao seu compromisso.

Muitas palavras caracterizam a convivência entre o homem e o cão: Sintonia, Simplicidade, Fidelidade, Entrega, Sinceridade, Confiança. Atributos essenciais na vida e no próprio processo analítico, processo de caminho ao encontro do arquétipo central, que é muitas vezes simbolizado por um animal e que representa a nossa natureza instintiva.

“A parte má do homem, adormecida pelas normas sociais, era comparada à sua parte animal, onde toda sua bestialidade e perigos encontravam-se ali depositados. Se, para tornar-se homem, o sujeito precisa abandonar seu estado natural e animal, logo, para suportar isso, se supõe que a aproximação com a espécie animal é uma forma de manter-se próximo ao seu estado natural, renegado e adaptado à cultura. Na animalidade do animal o homem se reconhece, e como uma tentativa de negar esta parte que não o constitui homem, ele projeta no animal as suas características.” (MELLO e MORAES, pg 7)

Podemos reconhecer essa natureza instintiva através do cão, afinal, não é apenas sobre pessoas que projetamos nossa sombra. Através dos afetos, aflorados na presença de cães, como medo, raiva, impaciência, falamos de nós; falamos sobre que parte de nós se incomoda com a espontaneidade, com a preguiça, com a despreocupação, com a dependência do outro, com a sujeira, com a bagunça. Que parte de nós é amigável mas quando somos contrariados mostramos os dentes? Que parte de nós só faz algo em troca de um “petisco”? Que parte de nós está brigando por território?

Um exemplo de projeção de sombra nas artes é Snoopy. Charles Schulz criou o personagem de quadrinhos Charlie Brown como um autorretrato, uma criança dominada por suas inseguranças. Snoopy, seu cachorro, é seu oposto, extrovertido e autêntico.

Na mitologia Jung (2012) traz que com o aparecimento de Diana vem inevitavelmente também seu animal usado na caça, o cão, o qual representa o lado sombrio dela. O que há nela de sombrio está no fato de ser ela também a deusa da ruína e da morte pois atira flechas que nunca falham. O cão representa seu lado vingativo e traiçoeiro.

O cão também está no inferno guardando suas portas, como Cérbero, que serve aos deuses dos mistérios da vida e da morte.Nichols (2007) mostra que ao passar por ele o herói não deve matá-lo. Orfeu o adormeceu com a lira e Hércules o subjugou com as mãos, o que significa que não fará a travessia da realidade mundana, orientada para o ego, até a terra do eu imortal, enquanto não tiver conquistado o seu lado intelectual, trazendo-o para a consciência. Diz-se também que quando alguém chega ele é adorável, faz festa, mas quando a pessoa quer ir embora, ele a impede; tornando-se feroz.. 

Ser respeitado ou temido, gostado ou  preterido, pacífico ou agressivo é parte da dinâmica das polaridades da personalidade cujo desafio é flexibilizá-las através do exercício da  alteridade.

 Nesse aspecto podemos pensar sobre as qualidades para as quais os cães nos remetem quando paira sobre nós o desencantamento do mundo,  superficialidade das relações e dos vínculos, onde prevalece o “cada um por si” através do  olhar utilitário sobre o outro. Talvez por isso, o não-humano  passou a ser a principal companhia humana, para nos relembrar sobre a empatia, a sinceridade e a fidelidade (nossa verdadeira natureza) afinal o oposto disso conhecemos bem. 

A convivência com os cães permite um reencontro, como em Argos e Odisseu,  daquilo que estava separado, de partes nossas desconhecidas afinal, a natureza do cão é ambivalente como a nossa. Amamos e odiamos, somos dóceis e agressivos no constante exercício de nos diferenciarmos e assim vamos elevando nossa consciência do infra-vermelho ao ultra-violeta quando então seremos capazes de existir apenas na amorosidade.

Com isso

“Podemos implorar a Anúbis, o deus-cão egípcio, para pesar o nosso coração e assim avaliar a nossa capacidade de amar, como se lhe pedíssemos para sermos mais abertos à alma animal que nos acompanha, que pode estar a farejar o nosso caminho nas profundezas onde nos perdemos.” (RONNBERG, §298)

Gostaria de finalizar o texto com uma prece que reflete o olhar do cão para essa convivência,  que se tivermos olhos para ver, nos foi dada a fim de  despertar o que há de mais elevado em nós.

 

Prece de um cão (Autor: Walter José de Faé)

Trata-me com carinho, querido amigo, porque não há nada no mundo mais agradecido do que o meu coração.

Não machuque meu espírito com a vara, porque embora eu esteja lambendo as suas mãos entre uma pancada e outra, a sua paciência e compreensão vão me ensinar mais rápido aquilo que você quer que eu aprenda.

Nem sempre eu estou certo, mas estou sempre querendo perdoar e ser perdoado.

Fale sempre comigo, pois a sua voz é a coisa mais doce, como você já deve ter percebido pelo abanar fogoso da minha cauda, quando ouço os seus passos.

Por favor leve-me para dentro quando estiver frio e chovendo pois sou animal doméstico, não mais acostumado ao frio e à chuva.

Peço-lhe nada mais do que o privilégio de sentar-me aos seus pés, ao lado do coração.

Mantenha meu pote cheio de água fresca pois não posso falar quando tenho sede.

Dê-me comida fresca para que eu fique bem e possa brincar e atender aos seus comandos, para andar ao seu lado e estar apto a lhe proteger com a minha vida, caso você esteja correndo perigo.

Não posso falar quando preciso de cuidados médicos ou quando devo tomar injeções. Olhe para mim e observe se estou diferente, fugindo da comida e leve-me ao amigo veterinário, para uma consulta periódica.

E, meu amigo quando eu estiver velho e não mais gozando de boa saúde, ouvindo e vendo mal, não faça nenhum esforço heróico para me manter vivo.

Tudo que lhe peço é que fique comigo até o fim, segure-me firme e fale comigo até que meus ouvidos não mais ouçam e meus olhos não mais vejam.

 

Ingrid Hermann - Membro analista em formação

Atendimentos em Santana e Vila Madalena - Contato: 11.98352-6118

Email: terapiajung@gmail.com

 

BACHMANN, Helen I. O animal como símbolo nos sonhos, mitos e contos de fadas

2017. Rio de Janeiro. Editora Vozes.

FAÉ DE, Walter José. Prece de um cão.http://portalnossomundo.com/site/textos/prece.html

JUNG, Carl Gustav. 14/1 Mysterium Coniunctionis §169, 182.6ªed.  2012. Ed. Vozes

KOWARSKI, Tatiana. A atuação do arteterapeuta à luz do arquétipo do Velho sábio.

MELLO, Magda ; MORAES, Helenara Sironi de . A relação do sujeito contemporâneo e o animal doméstico: Uma análise a partir do filme “Marley e eu”. Pg 7. 2017

https://www.psicologia.pt/artigos/textos/A1108.pdf

NICHOLS, Sallie. Jung e o tarô: uma jornada arquetípica. Ed. Cultrix. 2007. São Paulo.

RONNBERG, Ami. O livro dos símbolos - Reflexões sobre imagens arquetípicas. pg 296, 298. 2012. Ed. Taschen.

ROSA, João Guimarães. Campo Geral. In: _________. Manuelzão e Miguilim: (Corpo de Baile). 11 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 17-152 (Não custa lembrar que Campo Geral, originalmente, integrava o livro Corpo de Baile, publicado pela primeira vez em 1956) Em: http://besqua.blogspot.com/2015/09/campo-geral-uma-historia-que-se-le-para.html

SANTOS, Luiz Gonzaga Pereira dos. NISE DA SILVEIRA.Psicologia: ciência e profissão.revista@cfp.org.br

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931994000100005

 


Ingrid Hermann - 17/03/2020