PAIS ADOTIVOS: A IMPRESCINDIBILIDADE DE PAIS MAIS CÔNSCIOS DE SI MESMOS NA FORMAÇÃO DE FILHOS MAIS PLENOS.

Pais adotivos: A imprescindibilidade de pais mais cônscios de si mesmos na formação de filhos mais plenos. adoção

 

As reflexões a respeito da adoção, costumam levantar questões sob a perspectiva da criança adotada. Em uma visão analítica, poderíamos discorrer pelo desenvolvimento da personalidade desde a fase embrionária, com ênfase na relação primal, matriarcado até o patriarcado, levantando questões relativas ao abandono e aos distúrbios recorrentes, bem como das consequências na formação do eixo ego-self.

Provindo da admissão de inúmeras possibilidades de danos na formação do ego, e, consequentemente, no desenvolvimento da personalidade da criança institucionalizada que experiencia distúrbios na relação primal, deparamo-nos com a oportunidade singular de minimizar tais danos através da adoção, uma situação transferencial que possibilitaria a renovação da relação primal e da regeneração do eixo ego-self danificado.

Todavia, essas possibilidades são exatamente expectativas sem qualquer garantia ou certeza, mas que acima de tudo, nos casos de adoção, se inicia na transferência para os pais adotivos das figuras que exercem a maternagem e a paternagem, sendo, nessa situação especial, indispensável que esse processo seja vivenciado da forma mais saudável possível.

Considerando as ressignificações e novas orientações na transferência das representações arquetípicas importantes da primeira infância para os pais adotivos, Como esse processo poderia ser vivenciado saudavelmente?

Aparentemente, uma nova percepção se desponta no horizonte. Enquanto a maioria dos psicólogos, educadores e terapeutas afirmam a necessidade extrema de um acompanhamento psicoterápico à criança adotada, a análise junguiana nos auxilia a refletir e pensar formas de cuidados à psique dos pais adotivos e pretendentes à adoção.

 No que tange à influência da psique dos pais na dos filhos, Jung assegura: “A criança se encontra de tal modo ligada e unida à atitude psíquica dos pais, que não é de causar espanto se a maioria das perturbações nervosas verificadas na infância devam sua origem a algo de perturbado na atmosfera psíquica dos pais”. (JUNG, 2013, vol. XVII, p.48)

A criança encontra-se imersa no inconsciente dos pais, mais ou menos até dois anos de idade, mais especificamente no materno, e, posteriormente, no paterno, sendo, por essa situação, difícil tratar de uma criança sem tratar dos pais, visto que, invariavelmente, suas possíveis perturbações são reflexos das tensões e dificuldades enfrentadas no relacionamento parental.

Não resta dúvida de que as ações e os comportamentos repassados aos filhos adotivos podem refletir nas neuroses futuras dessas crianças, mas o aspecto que não mencionamos com frequência, é que essas ações são permeadas pelo inconsciente dos pais e, portanto, não são percebidas por eles como algo que possam influenciar negativamente a psique dos filhos.

Se concebêssemos na relação dos pais o clima conflituoso ou desvitalizado do casal, entraríamos na seara mais oportuna no que se refere à influência da psique dos pais na vida dos filhos, “o não dito”. É no não dito, não admitido e não aceito que está a maior influência transmitida aos filhos inconscientemente.

Ponderando a respeito dos primeiros anos de vida de uma criança, onde ela se encontra envolvida na “participation mystique” com a mãe, e, portanto, o modo de vida da mãe, seus conflitos, a tensão existente entre os pais, seus desejos realizados ou frustrados costumam encontrar lugar de expressão nos filhos, como que se estivessem aceitando o papel a eles atribuído, ou, ainda, como única válvula de escape da tensão ambiental familiar, o filho como ‘bode expiatório” da família, observa-se cada vez mais claro que os pais adotivos ou pretendentes à adoção necessitam empenhar-se em um trabalho harmonioso consigo mesmos.

Afinal, o que inferir sobre o efeito dos seus inconscientes sobre essas crianças tão sedentas de novos modelos saudáveis para auxiliar no seu desenvolvimento?

Aqui poderemos reconhecer o valor da frase escrita pelos editores suíços no prefácio de “O Desenvolvimento da Personalidade” de Carl Gustav Jung: “Ninguém conseguirá educar os outros sem antes educar a si próprio; do mesmo modo, ninguém atingirá o amadurecimento pessoal sem conscientização prévia”. (JUNG, 2013, vol. VII, p.8)

Se considerarmos que não estamos só falando dos pais propriamente ditos, mas da atuação psíquica na vida dessa criança da “vida não vivida deles e de seus antepassados”, ou seja, da sombra da família adotiva, ficaria impossível compreender porque esses pais não são bombardeados por informações que os encaminhe a um processo de análise, independentemente de isso ser muitas vezes facultado aos filhos adotados.

Jung (2013, vol. XVII, p.51) chega a questionar “como proteger as crianças contra os efeitos provenientes de si próprios?”

Pais adotivos são humanos e, portanto, trazem as cicatrizes de sua própria criação em suas personalidades, são possuídos muitas vezes por seus complexos, são escoltados pela persistente sombra reprimida, estão lutando consigo mesmos devido a uma série de demandas internas e externas, trazem as cargas psíquicas de suas próprias histórias, bem como da história das suas famílias de origem.

Que tipo de maternagem e paternagem eles ofereceriam a seus filhos com essa bagagem nunca acessada de sombras em sua história?

É certo que nenhum ser passa incólume pela vida, e isso inclui os pais. É óbvio, também, que todos os filhos são consequências não só da história de seus pais, mas, principalmente da de seus antepassados. Mas a reflexão considera que às crianças a serem adotadas não é dado prescindir de um esforço maior por parte dos adotantes. Trabalha-se com a hipótese de já terem distúrbios na relação primal, complexos maternos e paternos negativos que precisam de ressignificação e de novas orientações, e não de reforço para suas feridas na formação do ego e do eixo ego-self.

A teoria analítica nos demonstra que, quanto mais rígida a persona, mais autonomia e força terá a sombra. Sendo assim, é bem plausível falar, não só de necessidade, mais, também, de imprescindibilidade, ao tratarmos do cuidado com a psique dos pais pretendentes à adoção.

Uma vez que a sombra dos pais permeia atitudes e comportamentos que podem reforçar danos já estabelecidos, ao invés de possibilitarem sua recuperação, na medida do possível, com novas ressignificações, o cuidado com a psique desses pais não poderia resumir-se apenas a grupos de adoção já existentes que auxiliem os pais com temas voltados para as dificuldades cotidianas.

Longe disso, a exigência que se apresenta na adoção é de incentivo efetivo e mobilização contumaz para a busca de análise individual ou de casal, por parte dos pais adotivos, onde os traços inferiores, reprimidos e recalcados, os impulsos inaceitáveis e vergonhosos, e, por outro lado, a criatividade, a intuição, a espontaneidade, possam vir à tona, serem reconhecidos, aceitos e integrados, permitindo a esses futuros pais e mães uma versão de si mesmos mais preparada para lidar com a sombra de seus filhos.

 

REFERÊNCIAS

CNMP. Conselho Nacional do Ministério Público. Relatório da infância e juventude. Resolução n. 71/2011: Um olhar mais atento aos serviços de acolhimento às crianças e adolescentes no país. Brasília: CNMP, 2013.

DEL PRIORI, M. História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 2004.

FORDHAM, Michael. A criança e o indivíduo. São Paulo: Cultrix, 1994.

JACOBI, Joland. Complexo, arquétipo, símbolo. Petrópolis: Vozes, 2016.

JACOBY, Mario. Psicoterapia junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças. São Paulo: Paulus, 2012.

JUNG, Carl Gustav. Obras Completas de C. G. Jung. Petrópolis: Vozes. Volumes:

Vol. VII/1 – Psicologia do inconsciente, 2011.

Vol. VII/2 – O eu e o inconsciente, 2011.

Vol. VIII/2 – A natureza da psique, 2011.

Vol. XVII – O desenvolvimento da personalidade, 2013.

Vol. XIX/2 – Os arquétipos e o inconsciente coletivo, 2014.

_____. Seminários sobre sonhos de crianças. Petrópolis: Vozes, 2011.

MARCILIO, M. L. História social da criança abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998.

NEUMANN, Erich. A criança. São Paulo: Cultrix, 1980.

_____. A história da origem da consciência. São Paulo: Cultrix, 1980.

ZWEIG, C.; WOLF, S. O jogo das sombras: Iluminando o lado escuro da alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

 

Janaína Mathias

Analista em Formação pelo IJEP

Contato: @janaina.mathiass / www.janainamathias.com.br

Brasília  Asa Sul

 


Janaína Mathias - 12/12/2019