TERCEIRA IDADE: VIDA EM TRANSCENDÊNCIA

Terceira Idade: Vida em Transcendência Psicologia Junguiana

O envelhecimento é um processo que ocorre ao longo da vida, e a velhice é a última fase desse ciclo. Ela ocorre após a fase da maturidade e, de modo geral, entre 65 e 74 anos somos considerados “velhos jovens”, com mais de 75, “velhos” e, com mais de 85, “velhos mais velhos”. Esse percurso envolve muitas mudanças que podemos denominar de aspectos biopsicossociais e vêm ao encontro do que Jung nos trouxe como analogia do sol:

Os cento e oitenta graus de arco de nossa vida podem ser divididos em quatro partes. O primeiro quarto, situado a leste, é a infância, aquele estado sem problemas conscientes, no qual somos um problema para os outros, mas ainda não temos consciência de nossos problemas. Os problemas conscientes ocupam o segundo e terceiro quartos, enquanto no último quarto, na extrema velhice, mergulhamos naquela situação em que, a despeito do estado de nossa consciência, voltamos a ser uma espécie de problema para os outros. A infância e a extrema velhice são totalmente diferentes entre si, mas têm algo em comum: a imersão no processo psíquico inconsciente. (2013, O/C 8/2, p.360).

Na terceira idade, podemos mergulhar cada vez mais no inconsciente, permitindo assim que a vida transcenda.

          Nos últimos anos, o número de idosos cresceu e a expectativa de vida aumentou, em função de diferentes fatores. Os sinais de que a velhice está chegando podem ser constatados por algumas características físicas: perda de pigmentação, textura e elasticidade da pele, pelos finos e brancos, diminuição de estatura, rarefação dos ossos e tendência a dormir menos. De forma idêntica, as alterações sociais ocorrem: crise na identidade, mudança de papéis, aposentadoria, perdas diversas, diminuição de contatos sociais e estigmas. Por fim, as alterações psicológicas também podem estar presentes: dificuldade de adaptação aos novos papéis e as perdas orgânicas, alterações psíquicas que exigem tratamento, como depressão, hipocondria, baixa autoimagem e autoestima, entre outros. As alterações citadas não são determinantes e não obedecem rigorosamente à idade cronológica, tendo em vista que o ser humano é integral e único, podendo interferir nos padrões estabelecidos e ressignificar sua vida em qualquer momento. Machado de Assis nos trouxe, em forma de poesia, essa possibilidade: “Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva...”.

          Nesse contexto, aspectos culturais interferem na vida do idoso. Em algumas culturas, principalmente nas orientais, a velhice é sinônimo de sabedoria e respeito. Idosos são cuidados, glorificados, reverenciados, sendo consultados antes das grandes decisões. Infelizmente na nossa cultura nem sempre é assim. Queremos viver muito tempo, mas não queremos ser velhos, porque o ancião tem conotação de fragilidade, incompetência e perda de atratividade. Vários estudos são realizados para compreendermos o envelhecimento e, de acordo com Papalia, D. E., Olds, S. W., & Feldman, R. D., ainda nos deparamos com o preconceito de idade contra pessoas mais velhas, utilizando estereótipos que são baseados em ideias errôneas e que causam danos em diferentes dimensões. Muitos idosos são saudáveis, vigorosos e ativos, sendo que as mudanças físicas variam de pessoa para pessoa, podendo-se evitar os efeitos do envelhecimento que permeiam a doença, o desuso e o abuso do corpo. Os problemas crônicos podem se instaurar, mas não limitam as atividades da vida diária. A depressão e a demência podem ter tratamento adequado. De modo geral, os idosos mostram plasticidade no desempenho cognitivo e declínio no funcionamento da memória. (2006, p. 520).

          Segundo Rudolf Steiner, com o olhar da Antroposofia, dos 63 aos 70 anos, a sabedoria predomina e, caso tenha respeitado o ritmo de cada fase, sua luz interior também brilhará. Erik Erikson contribuiu com a psicologia do desenvolvimento, apresentando a última crise – integridade versus desespero - culminando na virtude da sabedoria, ou aceitação de nossa vida e morte iminente. E Jung colaborou com muitas reflexões, principalmente sobre o sentido e significado da vida:

Mas não devemos esquecer que só bem pouquíssimas pessoas são artistas da vida, e que a arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as artes (...) Assim, quantas coisas na vida não foram vividas por muitas pessoas – muitas vezes até potencialidades que elas não puderam satisfazer, apesar da sua vontade – e assim se aproximam do limiar da velhice com aspirações e desejos irrealizados que automaticamente desviam o seu olhar para o passado. (2013, O/C 8/2, p. 357).

Conforme a Psicologia Analítica, na primeira metade da vida ocorre o desenvolvimento do ego, voltado para a consciência. Aparecem as personas e as sombras. A totalidade psíquica fica em segundo plano e é substituída pelo princípio dual dos opostos, entre consciente e inconsciente, rompendo-se de algum modo com a entrada na metanoia – crise intensa que comparece diante de angústias - que nos convida à caminhada rumo ao Self. A segunda metade da vida geralmente é marcada pelo processo de individuação. Ocorre a síntese de fatores que envolvem o consciente e o inconsciente pessoal e coletivo, formando a totalidade da personalidade.

          De modo geral, hoje os idosos são amparados com mais possibilidades quando o assunto é saúde e qualidade de vida. Envelhecer envolve um processo dinâmico, progressivo e irreversível. Conforme Chopra (1994, p. 87), existem três modos de medir a idade de alguém: idade cronológica, idade biológica e idade psicológica. A gerontologia é a ciência que estuda o envelhecimento sob os aspectos social, psicológico, econômico, ético, legal, ambiental e de políticas de saúde. A geriatria cuida dos aspectos preventivos, curativos à saúde dos idosos. A psicologia é uma grande aliada para acompanhamento dos aspectos psíquicos do idoso. Algumas angústias dos idosos que buscam a psicoterapia, envolvem a limitação da capacidade de decisão, de comando e de escolha, que restringem a realização de atividades com os meios intelectual, físico, financeiro e afetivo. Outra queixa frequente é a de sentirem-se sozinhos, sem alguém que escute e compreenda suas necessidades. As patologias que aparecem podem ser transformadas em aspectos saudáveis pela ressignificação de padrões que resultem em manutenção da autonomia e possibilitem o máximo de independência. Em 1985, o grupo de samba Fundo de Quintal trouxe-nos a música “Realidade”: “Quando a idade chegar, não deixe transparecer rancor. Se a pele enrugar, sorria, são rugas de amor (...). Apesar dos pesares, brotou sementes que você plantou. Outro dia virá...”  Nesse sentido, o tempo de Kairós estará cada vez mais presente, permitindo o surgimento de novos significados para a existência.

De acordo com várias estatísticas, os problemas geriátricos mais comuns são: imobilidade com quedas, incontinência, insônia, infecção, iatrogenia, interação farmacológica, insuficiência cognitiva, déficit nutricional e desidratação, déficit imunológico, déficit visual e auditivo. Coincidência ou não, a maior parte das doenças iniciam com as letras “d” e “i”, apontando para problemas de deficiência e incapacidade, que nos levam à dependência dos outros. Sob o olhar da psicossomática, o adoecimento geralmente está interligado com fatores predisponentes e fatores desencadeantes da natureza humana. O eixo psiconeuroendocrinoimunologia, palavra longa, que simbolicamente sugere uma longa caminhada, em que o estresse crônico acelera o envelhecimento e o surgimento de doenças neurodegenerativas, muitas vezes vistas como um luto em vida, ao percebermos os nossos entes queridos em desintegração progressiva da personalidade. E sobre os fatores desencadeantes, Jung dizia:

Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o sol recolhe seus raios para iluminar-se a si mesmo. Em vez de fazer o mesmo, muitos indivíduos idosos preferem ser hipocondríacos, avarentos, dogmatistas e laudatores temporis acti (louvadores do passado) e até mesmo eternos adolescentes. (2013, O/C 8/2, p. 356).

Por outro lado, muitos idosos gozam de saúde excepcional, que envolve a harmonia entre os sistemas nervoso, endócrino e imunológico, genética, estilo de vida saudável, espiritualidade e mecanismos psicológicos adequados, o que abrange recursos de enfrentamento, boa rede de apoio e resiliência diante das dificuldades.

Envelhecer não é só um fator pessoal. Precisamos cada vez mais do compromisso social, institucional e de políticas públicas que beneficiem e protejam os idosos. Nessa sociedade desigual e discriminatória, cada vez mais eles são cuidadores de filhos adultos, netos ou bisnetos. Alguns continuam trabalhando fora de casa, limitando a sua qualidade de vida, no momento em que a vida requer estilos mais saudáveis, que incluam investimento em cuidados e lazer. Em alguns casos, ocorre o abandono e o abuso por parte de familiares, retirando dos idosos o dinheiro que possuem. Da mesma forma, alguns cuidadores também deixam de exercer os cuidados necessários, o que faz que eles se sintam cada vez mais sozinhos e desprotegidos. Consequentemente, com o declínio de alguns aspectos vitais e sem os cuidados necessários, as doenças podem aparecer e a morte se antecipar. A morte para muitos ainda é algo difícil de conceber e, segundo Jung, aspectos da vida psíquica estão presentes na dualidade viver e morrer: “Tenho observado que aqueles que mais temem a vida quando jovens, são justamente os que mais têm medo da morte quando envelhecem” (2013, O/C 8/2, p.362).

          Por isso, assim como na alquimia, diferentes etapas nos envolvem desde o nascimento até a velhice. De acordo com Jung,

os quatro estágios com cores mencionadas em Heráclito – melanosis (pretejamento), leukosis (embranquecimento), xanthosis (amarelamento) e iosis (avermelhamento) – com o passar do tempo transformaram-se em nigredo, albedo, rubedo... (1994, p. 241). 

A nigredo pode ser comparada com as noites escuras da alma, em que aparece o sentimento de fundo do poço, a necessidade do pesado e o difícil de ser limpo e purificado, que são as queixas e o sofrimento que precisam de um novo sentido e significado. Albedo é como a aurora, o amanhecer, onde o que não serve mais vai embora, representada pela candura e castidade e é também a fase reflexiva, de distanciamento e de maior consciência. A rubedo é a fase de maior equilíbrio, que envolve o sangue que circula, a vida que contagia o novo ser, podendo ser considerada como renascimento e renovação. Simbolicamente, é a transformação em ouro, que também pode ser compreendida, na linguagem junguiana, como função transcendente, função psíquica que se origina na tensão criada entre consciente e inconsciente, num movimento de integração dos opostos, que resulta em harmonização.

           Assim sendo, a terceira idade não precisa ser marcada por um processo de sofrimento desnecessário e pela simples reprodução de conhecimentos, como aparece simbolicamente no Arquétipo do Velho Sábio, representado por Cronos, o deus do tempo, o pai distante e hostil, o ancião que evita contato com outras pessoas por receio de que desafiem a sua autoridade e que apresenta dificuldade em expressar emoções (BRANDÃO, 1986). Ainda metaforizando, Cronos pode se unir a Reia, a mãe de todos os deuses, filha de Urano (céu) e a Gaia (terra), contribuindo com o fluir da vida. Em outras palavras, o envelhecimento de forma saudável envolve um propósito de vida, um objetivo maior para viver, um projeto de autoconhecimento que favoreça o servir, assim como fez Jung, que produziu um grande legado, principalmente durante o envelhecimento, criando condições para sucessores darem continuidade. E isso pode acontecer em diferentes áreas e em diferentes contextos. Envelhecer inclui um chamado para compreendermos e expressarmos o que é necessário a serviço de algo maior, que analogicamente abrange muitas mortes e renascimentos em vida. “É preciso saber viver”, nas vozes de Roberto Carlos, Erasmo Carlos ou Titãs, é um convite para escolhas saudáveis no presente, que também nos beneficiem no futuro: “Toda pedra no caminho, você pode retirar. Numa flor que tem espinhos, você pode se arranhar. Se o bem e o mal existem, você pode escolher”. Na terceira idade podemos transitar entre perdas e ganhos, com movimentos cíclicos de vida em transcendência.

 

           Claci maria Strieder – Membro analista em formação do IJEP

Waldemar Magaldi – Analista Didata

 

  1. Leituras de apoio:

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

BRANDÃO, J. Mitologia grega. Vol. 1, Petrópolis: Vozes, 1986.

CHOPRA, D. Corpo sem idade, mente sem fronteiras. RJ: Rocco, 1994.

ERIKSON, E. H. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

JUNG, C. G. A natureza da psique. 10ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.

__________ O desenvolvimento da personalidade. 14ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.

__________ Psicologia e Alquimia. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1994.

LIEVEGOED, B.  Fases da vida. Crises e desenvolvimento da Individualidade. São Paulo: Editora Antroposófica, 1994.

PAPALIA, D. E., OLDS, S. W., & FELDMAN, R. D. Desenvolvimento humano (8ª ed.). Porto Alegre: Artmed, 2006.

  1. Músicas:

ROBERTO CARLOS. É preciso saber viver. CBS, 1974.

FUNDO DE QUINTAL. Realidade. Álbum seja sambista, Rio de Janeiro: RGE,1984.


Claci maria Strieder - 27/09/2021